A desigualdade segundo Piketty

capital XXIPor que um denso tratado de economia de um jovem professor francês se tornou o best-seller mais discutido deste ano.

O mundo é desigual. Uma parte dessa desigualdade é boa. É o que dá cor à vida e nos faz únicos e diferentes. Mas, outra parte de desigualdade é ruim, quando representa um passado que impede o futuro de acontecer e nega oportunidades iguais às pessoas.

Thomas Piketty, professor da Paris School of Economics, publicou este ano um “tour de force”, O Capital no Século XXI, sobre o papel da desigualdade de renda e de riqueza na configuração da estrutura social em que vivemos.

O método usado por Piketty é simples: primeiro, trata do marco teórico (no caso, centrado em duas leis fundamentais do capitalismo, que relacionam a desigualdade ao crescimento econômico e ao retorno do capital) e depois a busca por evidências (principalmente na história econômica da Europa e EUA, desde o século 18) que confirmem suas hipóteses. Nessa trajetória, ele procura mostrar que a desigualdade motivada pela reprodução da riqueza pela riqueza (principalmente do capital herdado que busca valorização na esfera financeira) está na origem dos problemas econômicos e políticos contemporâneos.

No mundo, os 10% no topo da distribuição da renda do trabalho recebem normalmente 25% a 30% da renda total, enquanto os 10% mais ricos na distribuição de riqueza têm sempre mais do que 50% do total. Apenas números ? Não, segundo ele, pois estamos falando de uma luta intergeneracional que se sobrepõe à luta de classes e que pode afetar o próprio futuro do capitalismo.

Em 1987, havia 140 bilionários no mundo, que juntos tinham US$ 300 bilhões de riqueza. Em 2013, tínhamos já 1,4 mil bilionários, que possuem US$ 5,4 trilhões, quase quadruplicando sua participação na riqueza privada do mundo no período.

Durante todo o livro, Piketty mostra certa incredulidade em como “os vencedores” da hierarquia social conseguem convencer “os perdedores”. Ele argumenta como a justificativa de que altos salários podem ser explicados por diferenciais de produtividade não possui embasamento empírico e chega perto, segundo ele, de “uma construção puramente ideológica”. Ele questiona ainda o significado de “classe média” e de como o poder econômico se reproduz socialmente.

Assim, se ele estiver certo, somos dominados – sim diz ele – por 0.1% dos mais ricos no mundo que nos fazem acreditar, com base nas migalhas que nos deixam – sim, “migalhas”, ele usa essa palavra – que estamos muito bem como classe média e como pobres. Para ele a riqueza é tão concentrada que nós não temos nem ideia de como ela se reproduz.

Podemos, assim, viver “felizes”, em um mundo desigual, admirando aqueles que nos oprimem.

resumo do artigo de ZH – 10/08/2014 de Flavio Comim, professor da UFRGS

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