O Código Da Vinci

codigo_vinciNa Revista Cristã de Espiritismo, edição 40,  Lázaro Freire, pesquisador da vida de Jesus, falou sobre a influência que as discussões levantadas com o livro O Código Da Vinci, obra de ficção do escritor norte-americano Dan Brown, pode exercer na fé cristã.

O Lázaro eu conheço desde minha antiga lista “voadores” do Yahoo e de fato confirmo a qualidade da sua pesquisa em relação ao tema “Jesus Histórico” esclarecendo muitas distorções.

Como a Bíblia, do jeito que a conhecemos hoje, foi montada?

Lázaro Freire – Foi todo um processo, mas simplificando muito, a escolha da maioria dos livros “oficiais” se deu no Concílio de Nicéia, em 315, que sincretizou credos e ritos pagãos no novo “catolicismo romano”, atendendo a interesses da versão de Roma e seu Imperador Constantino. O Credo, que pensamos ser uma oração, é a afirmação do dogma votado. Excluíram ali teologias que geravam questionamentos (heresias) espiritualistas e gnósticos, incluindo as que mostravam Jesus como homem – e conseqüentemente, médium e Mestre. Livros importantes foram considerados apócrifos, com uso exclusivo da Igreja. Recentemente, fragmentos destes textos foram redescobertos. Como espiritualista, creio que estas descobertas justamente agora não são coincidências.

Os livros “escolhidos” oficializaram a heresia paulina, que era apenas uma das primeiras versões de cristianismo, e não era a posição da Igreja original de Jerusalém, presidida por Pedro e Tiago, irmão de Jesus. Paulo não conheceu Jesus em vida, tendo apenas o “experienciado” em visão (talvez como muitos de nós), e possuía uma interpretação própria das escrituras, tendo sido advertido por Tiago. Ainda que radical em sua visão messiânica, Paulo não escreveu suas cartas (Epístolas) às igrejas pensando que séculos depois seriam tomadas como a própria Lei de Deus. Grave como era, talvez ele mesmo considerasse isso um ultraje.

Já os Evangelhos adotados foram escritos em grego, de 30 a 70 anos depois de Jesus, após a completa destruição de Jerusalém – e parte de suas memórias. Mateus e Lucas parecem se basear em Marcos, o mais antigo. Este, por sua vez, dá uma narrativa mítica, romanceada, condensando a sabedoria de Jesus contida nas poucas fontes originais (conhecida pelos pesquisadores como fonte “Q”) com histórias contadas sobre ele, que também são comuns a Buda, Krishna e Mithra. Isso não é má intenção, mas o estilo da época. A versão gnóstica atribuída a João é ainda posterior aos outros três. Quanto a “Q”, as verdadeiras palavras do Mestre, até onde esta foi reconstituída historicamente em consenso, tratam-se de frases de sabedoria universal, ditas por um judeu. Conhecemos grande parte delas, e nunca endossam o moralismo posterior da Igreja romana e paulina.

O último livro a ser acrescentado foi este apocalipse que conhecemos (havia inúmeros), e é um texto claramente gnóstico, cujo simbolismo “interpretável” prestou bons serviços à Igreja. E temos o Velho Testamento, que vem dos judeus. Posteriormente, reduziram e adulteraram estes livros escolhidos numa Vulgata Romana, a versão em latim da Bíblia para os vulgares – ou seja, nós. As adulterações solicitadas foram tantas que seu tradutor, Jerônimo, se preocupou muito com o que estava fazendo com a palavra de Deus, mas o papa o tranqüilizou.

Quais seriam as maiores controvérsias sobre a vida de Jesus que a Igreja defende e que os historiadores discordam?

O assunto daria um livro, de tantos casos. Por exemplo, na época, os judeus não podiam crucificar ninguém, apenas lapidar. Só romanos crucificavam, e sempre aqueles considerados revolucionários.

Existem determinadas passagens nos evangelhos que são atribuídas à vida de Jesus, mas que também se encontram em narrativas da vida de outros mestres da humanidade. Registre-se que na história de Krishna, 2500 anos antes, ele teria nascido de uma virgem e sido perseguido na infância por um rei que mandara matar todas as crianças, temendo uma em particular. Ou seja, é bem possível que esta e outras passagens sejam míticas e não históricas.

A cidade de Nazaré é de 70 d.C. e é possível que Jesus fosse um “nazarita”, designação de facção política, e não nazareno. Os relatos tampouco respeitam distâncias e coerência.

Claramente, aliaram, posteriormente, dados imprecisos sobre a história dos judeus, em um tempo sem imprensa e internet, a mitos conhecidos e frases reais de Jesus. Isso seria até coerente com o estilo da época. O problema é que cada incoerência encontrada por Roma séculos depois deu origem a mutilações e interpretações, criando dogmas que se confundiram com o cristianismo, e posteriormente, com o protestantismo e parte do espiritismo. Entretanto, a fé em Jesus, como um mestre, uma egrégora, sabedoria e espírito de luz – e toda a evolução que já trouxe ao mundo – não precisa depender destes fatos “históricos”. Mesmo se o Mestre jamais tivesse encarnado entre nós.

Existe a possibilidade de Jesus ter sido casado com Maria Madalena?

É altamente provável, especialmente se considerarmos apócrifos bem aceitos por pesquisadores, embora naturalmente rejeitados pelos concílios de Roma. Além do mais, pelas tradições judaicas, ele precisaria ser casado naquela idade. Na cultura do deserto, até hoje seria escandaloso para uma mulher como Madalena andar sempre no meio deles, se não fosse casada com um do grupo. É ela também quem o unge como Messias, no Templo, seguindo a tradição dos reis dali. Há apócrifos que narram os ciúmes de Pedro para com ela, e o mestre a beijando na boca. Mas Jesus sendo Deus, na versão romana, nascido de virgem e sem sexo, não poderia ser casado, segundo a Igreja. A solução de um papa foi interpretar que Madalena seria uma prostituta arrependida. A versão é tão sem fundamento que o próprio Vaticano já a rejeitou, mas muitos de nós ainda pensamos que isso está na Bíblia.

Desde quando essa discussão existe?

Certamente, desde os primeiros tempos do cristianismo. A pergunta a nos fazermos é desde quando o questionamento parou de existir, e a resposta está nos concílios. Posteriormente, as cruzadas e a inquisição deram uma grande “contribuição” para a unificação da versão absolutista de Roma. Neste aspecto, o espiritismo é bastante feliz ao entender Jesus como um grande espírito, e ater-se mais à sabedoria de suas palavras e sua aplicabiluidade do que aos fatos históricos. Infelizmente, tradições equivocadas de nossos credos antigos ainda se sincretizam com várias casas, às vezes endossas por animismos, e precisamos esclarecer e atualizar a doutrina, como ensinava Kardec em suas Obras Póstumas.

Como você, como historiador, analisa O Código Da Vinci?

É um bom livro de ficção, e não de história – e, por isso, comete imprecisões. Entendo que mais acerta do que erra, e seu maior mérito é incentivar o questionamento e pesquisa. Seu enredo baseia-se em livros de pesquisadores sérios e as pesquisas e evangelhos apócrifos que estes questionam não são ficção.

E sobre O Evangelho de Judas? Qual é a sua opinião?

As revelações não são novas, e não nos surpreendem. Apócrifos originais, bem menos adulterados do que a Bíblia que temos, vem sendo encontrados há décadas no Egito e no Mar Morto. Seus textos já nos mostravam o papel de Judas como executor do plano de Jesus, a pedido do próprio. Não é por acaso que no filme A Última Tentação de Cristo ele é visto exatamente como agora comprovamos: estes conteúdos já eram da ciência de boa parte de pesquisadores, ocultistas, maçons e rosa-cruzes. Hoje, podemos revelar que estes eram alguns dos grandes segredos que geravam perseguição e injustiças, particularmente da Igreja, contra estas ordens.

A bem da verdade, uma leitura cuidadosa dos próprios evangelhos canônicos (oficiais) já deixa claro que a “traição” de Judas havia sido escolhida e anunciada pelo próprio Mestre, que o ordena a cumprir seu papel. Mesmo na Bíblia, Jesus anunciava que reproduzia certos fatos “para que se cumprissem as profecias”. Entrar em Jerusalem em um burrico, ser “traído” por um discípulo, ter descendência de David e ser ungido no templo eram sinais, para o povo, de que aquele seria o Salvador anunciado pelos profetas.

Quem teria sido Judas, então?

Mesmo na Bíblia oficial, evangelistas apontam Judas e Tiago como nome de irmãos de Jesus. Pela tradição que agora cai por terra, as pessoas pensavam haver dois Judas: um traidor, arquetípico; e outro bom, que escreve o penúltimo livro da Bíblia com o nome de Judas Tomé, ou Judas Dídimo. A tradição fala de um apóstolo “Tomé”, mas isto é um título e não um nome: é a palavra hebraica para “irmão gêmeo”. E confirmando isso, “dídimo” é a palavra grega para gêmeo. Os evangelhos que conhecemos foram escritos em grego, após a destruição de Jerusalem.

Já o título “iscariotes”, para muitos, vem de “sicário”, portadores de punhal, uma facção revolucionária da época, da qual Simão “Pedro” (palavra grega para rocha, pedra, “durão”) faria parte. Portanto, Iscariotes, Tomé e Dídimo são provavelmente alcunhas para Judas, irmão de Jesus, e discípulo fiel. E se Judas era irmão como a Bíblia afirma, pelo idioma seria um irmão gêmeo de Jesus, o que na época era visto como mais um sinal de Deus.

Segundo vários autores, baseados nos Atos dos Apóstolos e pesquisas, Judas teria ido para o oriente. Um profeta conhecido lá como Issa, possuia um discurso parecido com o de Jesus. Se era gêmeo, isso explica porque certos pesquisadores – e o próprio Alcorão – sustentam a tese de que Jesus teria sobrevivido à cruz e vivido na Índia. Os estudos não são conclusivos, mas aparentemente ele ou seu irmão (gêmeo?) viveram e pregaram lá. No Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, Jesus é respeitado como um grande “profeta” – e não o próprio Deus, como na versão da Igreja de Roma.

Você acha que precisamos humanizar mais Jesus, sem deixarmos de valorizar seus ensinamentos?

Sim, mas entendo que o verdadeiro espiritismo sempre fez isso. As palavras originais de Jesus (Fonte “Q”) falam de sabedoria e espiritualidade, e nunca da religião e pseudo-história acrescentada depois. Esta sabedoria sobreviveu às adulterações da Bíblia, e foi este lado que Kardec e interpretou à luz da doutrina. Entendo que se o codificador, universalista como era, vivesse na Índia, teria escrito o “Baghavad Gitá Segundo O Espiritismo”, e estaria mais interessado na essência da sabedoria de Krishna do que em discutir se este tinha pele branca ou azul.

Não é culpa do espiritismo em si, mas algumas pessoas confundem o dogma católico que aprenderam na infância com a essência de Deus, criando em algumas casas um “neo-catolicismo mediúnico reencarnacionista”, que também tem sua utilidade evolutiva – e falo isso pensando em minha própria mãe! – mas não pode ser confundido com a própria palavra de Jesus ou de Kardec.

Como é possível mantermos nossa fé após sabermos de tantas controvésias sobre a vida de Jesus?

A pesquisa precisa haver, para não cairmos em novas mistificações. Já a fé e espiritualidade são conceitos interiores, intransferíveis e inquestionáveis. Filmes assim nos perguntam se o Espírito Crístico que experimentamos está mesmo baseado no coração, ou em alguma história exterior. Aliás, todo alto clero passa por este questionamento, em algum momento de sua carreira.

Entendo que há toda uma egrégora e espiritualidade atuando há séculos, evolutivamente, em nome de Jesus Cristo e sua mensagem. O bem que este movimento faz independe da verdade histórica, ou de erros passados de dirigentes religiosos. Alguns espiritualistas preferem separar o “Jesus” da história, grande homem e médium; de “Cristo”, a verdade espiritual que ele nos trouxe. Eu concordo: em todas as religiões, o que se faz em nome de Cristo é bom, e não pode ser afetado pelo que se fez de mentiras em nome de Jesus. Se simples fatos históricos ou ficções policiais abalarem nossa fé, devemos questionar se não havia um dogma eclipsando nossa verdadeira essência espiritual.